SOUSA – O Sertão da Paraíba acaba de confirmar sua soberania como um dos maiores santuários paleontológicos do mundo. Uma expedição científica de pesquisadores ligados à Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado localizou, na zona rural de Sousa, o que já é oficialmente considerado o maior rastro de um dinossauro carnívoro já registrado em solo brasileiro.
Com 60 centímetros de comprimento por 55 de largura, a pegada tridáctila (de três dedos) não é apenas um registro fóssil; é o testemunho silencioso de um reinado que durou milhões de anos no coração do que hoje chamamos de lar.
O Abelisaurus: O Predador que Dominava o Nordeste
Localizada na comunidade Floresta dos Borbas, a pegada pertenceu a um Abelisaurus, um dos predadores mais temidos do período Cretáceo. Enquanto o famoso Tiranossauro Rex dominava o hemisfério norte, o Abelisaurus era o "rei" das terras ao sul.
De acordo com o pesquisador-chefe Fábio Cortes, este exemplar específico era um animal de grande porte, atingindo cerca de 6 metros de comprimento. O achado é um divisor de águas: anteriormente, os registros na região de Sousa eram majoritariamente de carnívoros de pequeno porte (celurossauros). Esta descoberta prova que a Paraíba era o território de caça de gigantes que, até então, eram mais associados a descobertas na Argentina e na Patagônia.
Sousa: Uma Cápsula do Tempo de 140 Milhões de Anos
Para entender a magnitude desse achado, é preciso recuar no tempo. Há 140 milhões de anos, o Sertão semiárido era um ecossistema úmido e pantanoso. Onde hoje vemos rocha e caatinga, existia um solo de lama macia que funcionou como um molde perfeito.
A preservação dessas pegadas na Bacia do Rio do Peixe é um fenômeno geológico raro. O animal caminhava pela margem de lagos; o sol escaldante "assava" a lama, endurecendo a marca antes que a água a apagasse. Camadas de sedimentos cobriam o rastro, protegendo-o por eras sob a terra, até que a erosão natural e o olhar atento dos pesquisadores os trouxessem de volta à luz.
Ciência de Ponta no Coração do Sertão
A identificação não foi apenas visual. A equipe utilizou tecnologia de fotogrametria digital, capturando centenas de fotos sob diferentes ângulos para gerar modelos 3D precisos. Esse processo cria um acervo digital eterno, permitindo que cientistas do mundo inteiro estudem a biomecânica deste dinossauro sem sequer tocar na rocha.
O esforço de pesquisa está integrado a um ecossistema científico maior no Sertão, que inclui desde a paleontologia até a astronomia avançada com o radiotelescópio BINGO. É a Paraíba olhando para as estrelas e para o solo profundo simultaneamente.
O Desafio da Preservação
A descoberta também trouxe um alerta: a pegada estava em uma área de tráfego rural. Para garantir que este tesouro da humanidade não seja destruído, a Prefeitura de Sousa e os órgãos estaduais já planejam o desvio da estrada local e a instalação de sinalização rigorosa.
O pesquisador Fábio Cortes é otimista: "A Bacia do Rio do Peixe é vasta e ainda pouco mapeada. Cada visita revela novos segredos. Estamos apenas arranhando a superfície do que esses gigantes deixaram para trás".
Caminhar por Sousa hoje é, literalmente, pisar sobre os passos de gigantes. É um lembrete de que o tempo é vasto e que a nossa história está escrita sobre as marcas de quem reinou aqui muito antes de nós.
